Em 1993, a Toyota lançava no mercado japonês o A80 Supra, a quarta geração de seu esportivo topo de linha. O que poucos sabem é que o projeto começou em 1989, sob a alcunha interna de “Project Phoenix”, e tinha como objetivo explícito superar rivais como o Nissan Skyline GT-R e o Mazda RX-7. A equipe de engenharia, liderada por Isao Tsuzuki, recebeu carta branca para desenvolver um motor capaz de suportar altas potências sem comprometer a confiabilidade.
O coração da fera: motor 2JZ-GTE
O motor escolhido foi o 2JZ-GTE, um seis cilindros em linha de 3.0 litros com duplo turbo sequencial. Originalmente projetado para o sedã Aristo, o bloco de ferro fundido e o cabeçote de alumínio permitiam ajustes extremos. Na versão de exportação, o motor entregava 320 cv e 43,8 kgfm de torque, mas nos carros japoneses, por conta do acordo de cavalheiros, a potência declarada era de 280 cv – número sabidamente subestimado. Testes de dinamômetro da época revelavam valores próximos a 330 cv no eixo traseiro.
O sistema de turboalimentação sequencial era uma obra-prima: dois turbos Hitachi de tamanhos diferentes (CT12B e CT20B) trabalhavam em conjunto para eliminar o lag. O primeiro turbo entrava em ação em baixas rotações, e o segundo assumia a partir de 4.000 rpm. Na prática, o motor respondia de forma linear desde 2.500 giros, com um empurrão forte e contínuo até 6.800 rpm.
| Especificação | Valor |
|---|---|
| Motor | 2JZ-GTE 3.0L I6 biturbo |
| Potência (EUA/Japão) | 320 cv / 280 cv (declarada) |
| Torque | 43,8 kgfm a 4.800 rpm |
| Transmissão | Getrag V160 de 6 velocidades manual (ou 4AT automática) |
| 0-100 km/h | 4,6 segundos (testes da época) |
| Velocidade máxima | 280 km/h (limitada eletronicamente) |
| Peso | 1.570 kg |
Design e aerodinâmica
O design do Supra Mk4 foi desenhado por Shigeru Uehara, que também assinou o Honda NSX. As linhas fluidas e o enorme aerofólio traseiro não eram apenas estéticos: o coeficiente aerodinâmico era de 0,31 Cx, excelente para a época. A carroceria era construída em aço, com capô e tampa do porta-malas em alumínio. Os faróis retráteis, característicos dos anos 90, escondiam projetores de alto desempenho.
Internamente, o cockpit era envolvente, com bancos Recaro de série (nos mercados onde eram oferecidos), volante Momo e um painel de instrumentos com fundo branco e mostradores alaranjados. O acabamento, embora não tão luxuoso quanto o de um Lexus, era sólido e funcional.
Mercado e concorrência
O Supra Mk4 chegou ao mercado americano em 1994 com preço sugerido de US$ 37.000 – cerca de US$ 65.000 em valores corrigidos. Concorria diretamente com o Nissan 300ZX (US$ 36.000), o Mazda RX-7 (US$ 32.500) e o Dodge Stealth RT/Turbo (US$ 28.000). Em termos de desempenho, o Supra se destacava pela facilidade de modificação: com um simples chip de reprogramação e escapamento, a potência saltava para 400 cv. Isso criou uma legião de entusiastas e preparadores.
No Japão, o Supra era vendido em três versões: SZ (aspirada), SZ-R (aspirada com suspensão esportiva) e RZ (biturbo). A versão RZ era a mais cobiçada, com diferencial de deslizamento limitado Torsen e freios Brembo. No total, foram produzidas cerca de 11.000 unidades da geração A80 entre 1993 e 2002, sendo 6.300 delas para o mercado norte-americano.
O legado e a cultura pop
O Supra Mk4 ganhou fama mundial graças ao filme “Velozes e Furiosos” (2001), onde o carro laranja de Paul Walker se tornou um dos veículos mais icônicos do cinema. Na cena do primeiro racha, o Supra aparece com um motor modificado que, na vida real, era um 2JZ-GTE com dois turbos HKS T51R, capaz de ultrapassar 1.000 cv. O carro usado no filme era um modelo 1994 com câmbio automático, mas recebeu adesivos que simulavam o manual.
Fora das telas, o Supra dominou as pistas de drift e drag. Pilotos como Eiichi Okuyama e Masahiro Tashiro venceram campeonatos japoneses com carros preparados. Até hoje, o bloco 2JZ é considerado um dos mais resistentes já produzidos, suportando potências superiores a 2.000 cv com modificações adequadas.
O fim da produção e a redescoberta
A produção do Supra Mk4 foi encerrada em 2002, vítima das novas regulamentações de emissões e da crise econômica japonesa. Durante anos, os preços dos modelos usados caíram, chegando a ser vendidos por menos de US$ 20.000 no início dos anos 2010. No entanto, com o lançamento do novo Supra (A90) em 2019, em parceria com a BMW, os valores dos Mk4 dispararam. Hoje, um exemplar em bom estado pode custar mais de US$ 100.000, e versões raras como a RZ ou a Turbo com câmbio manual chegam a US$ 150.000.
O Toyota Supra Mk4 não é apenas um carro: é um símbolo de uma era em que os esportivos japoneses desafiavam a hegemonia europeia com engenharia ousada e preços acessíveis. Sua história, repleta de inovações técnicas e apelo emocional, continua a inspirar novas gerações de entusiastas.