A história da Mitsubishi Motors é um conto épico de ascensão meteórica e queda brutal. Fundada em 1970 como um spin-off do conglomerado Mitsubishi, a marca rapidamente se destacou por sua engenharia ousada e espírito esportivo. Do lendário Lancer Evolution ao inovador Pajero, a Mitsubishi conquistou fãs no mundo inteiro. No entanto, uma série de erros estratégicos, escândalos e a perda de identidade a levaram a uma crise profunda. Esta reportagem mergulha nos detalhes técnicos e de mercado que definiram essa trajetória.
Os Anos de Ouro: Inovação e Performance
Nos anos 1990 e início dos 2000, a Mitsubishi era sinônimo de tecnologia de ponta. O Lancer Evolution, com seu motor 4G63 turboalimentado e tração integral, tornou-se um ícone dos ralis, conquistando quatro títulos mundiais consecutivos (1996-1999). O Pajero dominou o Rally Dakar, com 12 vitórias, graças ao seu sistema Super Select 4WD e suspensão independente. A Mitsubishi também foi pioneira em motores com injeção direta de gasolina (GDI) e transmissões de dupla embreagem (Twin Clutch SST).
No mercado brasileiro, modelos como o Lancer, Eclipse e Pajero Full conquistaram uma legião de seguidores. A marca era conhecida por sua durabilidade e desempenho, especialmente em versões como a Lancer Evolution VIII e IX, que entregavam até 280 cv (limitados pelo acordo de cavalheiros japonês).
O Início do Declínio: Escândalos e Erros Estratégicos
O declínio começou no início dos anos 2000. Em 2004, a Mitsubishi foi envolvida em um escândalo de recall nos Estados Unidos, onde escondeu defeitos em veículos por anos. Isso manchou sua reputação. Além disso, a empresa enfrentou problemas financeiros devido à bolha especulativa japonesa e à concorrência acirrada de Toyota, Honda e Nissan.
A partir de 2005, a Mitsubishi abandonou gradualmente seus carros esportivos e de alto desempenho, focando em veículos econômicos e SUVs. O Lancer Evolution foi descontinuado em 2015, e o Eclipse Cross, lançado em 2017, tentou reviver o nome Eclipse, mas em um crossover sem emoção. A marca também atrasou sua entrada no mercado de carros elétricos, lançando o i-MiEV em 2009, um veículo com alcance limitado e design controverso.
Tabela Comparativa: Mitsubishi vs. Concorrentes (2000-2020)
| Modelo | Motor | Potência | 0-100 km/h | Preço (2020) |
|---|---|---|---|---|
| Mitsubishi Lancer Evolution X | 2.0L Turbo 4G63 | 291 cv | 5.4 s | R$ 180.000 |
| Subaru WRX STI | 2.5L Turbo EJ25 | 300 cv | 5.2 s | R$ 200.000 |
| Mitsubishi Pajero Full 3.8 V6 | 3.8L V6 6G75 | 250 cv | 10.2 s | R$ 250.000 |
| Toyota SW4 4.0 V6 | 4.0L V6 1GR-FE | 284 cv | 9.5 s | R$ 280.000 |
O Colapso no Brasil e no Mundo
No Brasil, a Mitsubishi teve um papel importante como pioneira em SUVs com o Pajero e picapes com a L200. No entanto, a partir de 2015, a marca começou a perder relevância. A falta de lançamentos empolgantes, a obsolescência de seus modelos (como o Lancer, que ficou praticamente sem mudanças por mais de uma década) e a concorrência de marcas como Toyota, Honda e Jeep a tornaram uma opção cada vez menos atrativa.
Globalmente, a Mitsubishi vendeu apenas 1,1 milhão de veículos em 2020, contra 9,5 milhões da Toyota. A empresa foi adquirida pela aliança Renault-Nissan em 2016, tornando-se uma subsidiária controlada. Desde então, a Mitsubishi tem se limitado a rebadges de modelos Nissan, como o Mitsubishi Outlander (baseado no Nissan Rogue) e o Mitsubishi ASX (baseado no Nissan Qashqai). A perda de identidade é total.
Lições de uma Queda Anunciada
A trajetória da Mitsubishi ensina que a inovação constante e a identidade de marca são cruciais. A empresa se apoiou demais em seus sucessos passados e não conseguiu se adaptar às mudanças do mercado, como a eletrificação e a demanda por SUVs modernos. O escândalo de recalls e a falta de investimento em P&D agravaram a situação. Hoje, a Mitsubishi sobrevive como uma sombra do que foi, mas sua história ainda inspira entusiastas que lembram dos dias de glória nos ralis e nas ruas.