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Ascensão e Queda da Mitsubishi: De Ícone dos Ralis ao Esquecimento no Brasil

Por Redação

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Leitor Neural Ativado

A trajetória da Mitsubishi no Brasil é um estudo de caso sobre como a inovação técnica e o marketing agressivo podem levar uma marca ao topo, mas a falta de renovação e os erros estratégicos podem condená-la ao ostracismo. De carros que marcaram época como Lancer Evolution e Pajero Full, a marca hoje sobrevive de picapes e SUVs, com um portfólio envelhecido e vendas em queda livre.

A Mitsubishi Motors Corporation, fundada em 1970 como braço automotivo do conglomerado Mitsubishi, construiu uma reputação lendária nos anos 1990 e 2000, especialmente no Brasil, onde seus modelos eram sinônimo de desempenho, robustez e tecnologia. Mas o que aconteceu com a marca que dominou os ralis com o Lancer Evolution e foi a primeira a oferecer tração integral em um sedã médio? Nesta reportagem, mergulhamos nos dados técnicos, nas estratégias de mercado e nos erros que levaram a Mitsubishi ao ostracismo no mercado brasileiro.

A Era de Ouro: Inovação Técnica e Domínio nos Ralis

A Mitsubishi chegou ao Brasil oficialmente em 1991, mas já era conhecida por modelos como o Lancer (primeira geração) e a picape L200. O grande divisor de águas foi o lançamento do Lancer Evolution, em 1992. Com motor 4G63 2.0 turbo de 280 cv (no Japão) e tração integral AWC (All Wheel Control), o Evo se tornou um dos carros mais desejados por entusiastas. No Brasil, as versões importadas (Evo IV, V, VI) chegaram a custar o equivalente a R$ 150 mil na época, mas vendiam bem graças ao status de 'carro de rali de rua'. A Pajero Full (primeira geração, 1982) também foi um sucesso: foi um dos primeiros SUVs a oferecer tração 4x4 com reduzida e suspensão independente, ideal para o off-road brasileiro. A marca ainda inovou com o Mitsubishi 3000GT (1990), um esportivo com tração integral e direção nas quatro rodas, que rivalizava com Nissan 300ZX e Toyota Supra.

O Pico: Anos 2000 e a Diversificação de Produtos

Nos anos 2000, a Mitsubishi ampliou sua presença no Brasil com a produção local da L200 (em Catalão-GO) e a chegada do Pajero Sport (primeira geração, 2000). O Lancer (nona geração, 2007) foi um dos sedãs médios mais vendidos, com motor 2.0 16V de 160 cv e câmbio CVT. A marca também trouxe o Outlander (primeira geração, 2005), um dos primeiros SUVs compactos com terceira fileira de bancos. Em 2008, a Mitsubishi do Brasil atingiu o recorde de 80 mil unidades vendidas, com market share de 3,2%. Mas já havia sinais de problemas: a falta de renovação do Lancer Evolution (que ficou sem atualização expressiva entre 2005 e 2015) e a dependência excessiva de picapes e SUVs.

A Queda: Erros Estratégicos e Portfólio Envelhecido

A partir de 2010, a Mitsubishi começou a perder fôlego. A marca não acompanhou a evolução dos concorrentes: enquanto Honda, Toyota e Hyundai lançavam novos modelos com tecnologias como injeção direta, câmbio de dupla embreagem e sistemas híbridos, a Mitsubishi insistia em motores 4G63 defasados (comando simples, sem variável) e câmbios CVT de resposta lenta. O Lancer Evolution X (2008) foi o último da linhagem, e a marca nunca mais lançou um esportivo de verdade. A Pajero Full (terceira geração, 1999) só foi substituída em 2019, após 20 anos de produção! A L200, mesmo sendo líder de vendas, sofreu com a concorrência da Toyota Hilux e Ford Ranger, que ofereciam motores mais potentes e tecnologia embarcada. Em 2015, a Mitsubishi foi pega em um escândalo de adulteração de dados de consumo de combustível (junto com outras marcas), o que abalou a confiança do consumidor. A partir de 2017, as vendas despencaram: de 50 mil unidades em 2016 para menos de 20 mil em 2020.

A Situação Atual: Sobrevivência com Picapes e SUVs

Hoje, a Mitsubishi do Brasil vive uma realidade modesta. Seu portfólio se resume a L200 Triton (picape média), Pajero Sport (SUV médio), Eclipse Cross (SUV compacto) e o elétrico i-MiEV (vendido apenas para frotas). A marca não tem mais um sedã, hatch ou esportivo. A participação de mercado caiu para 0,8% em 2023, atrás de marcas como Chery e BYD. A tabela abaixo mostra a evolução das vendas e dos principais modelos:

AnoVendas (unidades)Modelo mais vendidoParticipação de mercado
200880.000L2003,2%
201355.000L2002,0%
201822.000L2001,1%
202315.000L2000,8%

Análise Técnica: Onde a Mitsubishi Errou?

Do ponto de vista técnico, a Mitsubishi pecou por não evoluir seus powertrains. Enquanto a Toyota lançava o motor 2.8 D-4D (177 cv) na Hilux, a Mitsubishi manteve o 2.5 DI-D (165 cv) com injeção indireta e turbo de geometria fixa. O câmbio manual de 5 marchas perdurou até 2015, quando a concorrência já oferecia 6 marchas. No Lancer, o motor 2.0 4B11 (160 cv) era moderno, mas o câmbio CVT apresentava problemas de durabilidade e não agradava os entusiastas. A Pajero Sport, que um dia foi referência em off-road, manteve o motor 3.2 DI-D (180 cv) por mais de 10 anos, enquanto a concorrência migrava para motores mais potentes e eficientes. A falta de investimento em eletrificação também foi fatal: o i-MiEV, lançado em 2009, tinha autonomia de apenas 100 km e nunca vingou.

O Legado e as Lições

A história da Mitsubishi no Brasil serve de alerta para outras montadoras: inovação constante, renovação de portfólio e atenção às tendências de mercado são cruciais. A marca ainda tem fãs fiéis, especialmente donos de Lancer Evolution e Pajero Full, mas a falta de novidades e a má gestão fizeram com que a Mitsubishi se tornasse uma sombra do que foi. Para os entusiastas, resta a nostalgia e a esperança de que a marca, agora sob o guarda-chuva da aliança Renault-Nissan, possa renascer com novos modelos elétricos e híbridos. Mas, no Brasil, o futuro parece incerto.

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