Houve um tempo em que os carros a álcool respondiam por 95,8% das vendas de veículos leves no Brasil. O auge veio em 1986, mas a trajetória de sucesso durou pouco. A queda do preço do petróleo tornou a gasolina mais competitiva, enquanto a disparada das cotações do açúcar levou as usinas a priorizar as exportações em detrimento do etanol vendido a preços controlados pelo governo. O resultado foi uma crise de abastecimento que deixou filas nos postos, veículos sem combustível e uma geração de motoristas traumatizada com o álcool. O combustível derivado da cana só recuperaria algum espaço com a chegada da tecnologia flexfuel, em 2003.
Agora, surpresa: a linha 2027 da Chevrolet traz o Onix ECO, uma versão projetada para rodar exclusivamente com etanol. Disponível como hatch ou sedã, o carro, segundo a GM, “viabiliza a entrada de versões automáticas no Programa Carro Sustentável, dentro do Mover”.
Esse programa federal mudou drasticamente a métrica de emissões. Em vez de avaliar apenas o que sai pelo escapamento, agora adota o conceito do poço à roda, contabilizando a pegada de carbono da geração daquela energia. No cálculo do chamado IPI Verde, ganham bônus os veículos 100% elétricos (BEV), híbridos flex ou modelos movidos exclusivamente por biocombustíveis. As versões com câmbio manual do Onix já conseguiam um bom enquadramento fiscal por serem leves e eficientes, mesmo sendo flex. Porém, a versão 1.0 turbo com câmbio automático — uma das favoritas do mercado — ficava fora da nota máxima do IPI Verde devido ao peso extra da transmissão e ao consumo maior na média global.
Ao abrir mão do sistema flex e mapear o motor para queimar apenas etanol, a GM conseguiu trabalhar com calibrações mais eficientes. Além disso, houve uma redução drástica da pegada de carbono nos parâmetros de cálculo do poço à roda do Mover (o etanol reduz em cerca de 70% as emissões de CO₂ em comparação com a gasolina). A estratégia tributária permitiu enquadrar a versão ECO do Onix Turbo Automático no Programa Carro Sustentável, garantindo o bônus fiscal necessário para chegar às concessionárias com preços mais competitivos.
Enquanto o Onix hatch 1.0 Turbo automático flex tem valor de tabela de R$ 111.990, seu equivalente movido exclusivamente a etanol sai por R$ 103.190 — uma redução de 7,8%. Na promoção de lançamento, o ECO hatch está sendo vendido por R$ 99.990. Já o sedã automático flex custa R$ 114.190, contra R$ 106.990 pedidos pelo Onix Plus a álcool, uma redução de 6,3%. Com o desconto de lançamento, o valor cai para R$ 103.990.
Tal redução de preço, porém, não bastaria para explicar a nova versão movida apenas a etanol. Há também uma demanda crescente de empresas que precisam reduzir sua pegada de carbono. Esse movimento vem ganhando força por uma combinação de regulamentações mais rígidas, exigências de investidores (especialmente internacionais) e clientes corporativos. Como os veículos de frota respondem por uma parcela significativa das emissões diretas das empresas, uma das formas mais rápidas de cumprir metas de sustentabilidade é substituí-los por modelos considerados mais limpos — no caso, com emissão zero de CO₂ fóssil, segundo a etiquetagem veicular do Inmetro. E um Onix automático a etanol custa menos na compra do que qualquer carro elétrico vendido atualmente no Brasil.
Para enquadrar o modelo nas exigências do Programa Carro Sustentável, a GM também precisou ajustar a calibração do motor 1.0 turbo, que agora rende 116 cv e 16,8 kgfm de torque com etanol — contra 116 cv e 16,3 kgfm na versão flex. O câmbio é automático de seis marchas. A suspensão e os freios foram recalibrados para suportar o peso extra do tanque de combustível, que permanece com capacidade de 44 litros.
Com essa jogada, a Chevrolet não apenas reduz o preço do Onix automático, mas também oferece uma alternativa de baixo carbono para frotistas e consumidores conscientes. O Onix ECO 2027 chega às concessionárias em julho, com garantia de três anos e revisões programadas a cada 10 mil km.