A promessa de uma cadeia europeia robusta de baterias para veículos elétricos está ruindo. Documentos obtidos por nossa reportagem e declarações oficiais da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) e da Society of Motor Manufacturers and Traders (SMMT) revelam que a indústria automotiva do Reino Unido e da União Europeia admite, nos bastidores, que não conseguirá cumprir as metas que ela mesma ajudou a desenhar.
O prazo fatal de 2027
Pelo Acordo de Comércio e Cooperação pós-Brexit, a partir de 1º de janeiro de 2027, 55% do valor de um carro elétrico deverá ser produzido na Europa para circular sem tarifas. Além disso, 70% do pacote de baterias e 65% das células precisam ser fabricados localmente. A ideia original era usar essas regras como alavanca para atrair investimentos e criar uma indústria autônoma de baterias. No entanto, a realidade é bem diferente.
Em 2023, a Comissão Europeia já havia suspendido as regras por três anos, empurrando o prazo para o fim de 2026. Agora, a sete meses do novo prazo, a indústria informa que os objetivos continuam fora de alcance. Jonathan O’Riordan, diretor de comércio internacional da ACEA, revelou que a previsão mudou drasticamente: quando as tarifas foram suspensas em 2024, a expectativa era que 60% das baterias de carros a caminhões fossem europeias em 2027. Hoje, a projeção é de “pouco menos de 20%”. No Reino Unido, o percentual é maior, mas ainda abaixo do exigido.
Os gargalos: custo, matéria-prima e tempo
O principal obstáculo é o custo. Segundo O’Riordan, fabricar baterias na Europa sai cerca de 30% mais caro do que na China. Além disso, a dependência de matérias-primas críticas, como lítio refinado, ainda é enorme. Stefan Scherer, chefe da única fábrica de lítio da Europa, já afirmou que abrir uma mina e estruturar a cadeia produtiva completa pode custar US$ 750 milhões (cerca de R$ 3,8 bilhões) e levar anos. “Da abertura de uma mina até a produção de lítio em grau de bateria, o processo é lento e caro”, explicou.
Mike Hawes, diretor-executivo da SMMT, foi direto: “As cadeias de baterias ainda não estão prontas para cumprir exigências tão rígidas. Essas metas foram baseadas em premissas que não se concretizaram, apesar dos grandes investimentos do setor.” Ele defende uma solução pragmática para evitar “tarifas autodestrutivas” sobre os mesmos veículos que os consumidores são estimulados a comprar.
Pressão sobre Bruxelas e o risco de retrocesso
Sigrid de Vries, diretora-geral da ACEA, pediu uma “mudança de política” na Comissão Europeia para acelerar a transição e evitar que a indústria fique presa a metas inalcançáveis. O temor é que as negociações entre UE e Reino Unido tenham perdido ritmo, sem nova data para a cúpula prevista para maio. Enquanto isso, a China avança na produção de baterias com custos competitivos e domínio de matérias-primas, deixando a Europa em desvantagem.
Para o consumidor, o impacto pode vir na forma de carros elétricos mais caros ou menos oferta de modelos. Se as tarifas voltarem a valer em 2027, os preços dos EVs importados entre Reino Unido e UE podem subir, encarecendo a transição energética. A indústria automotiva europeia, que já enfrenta margens apertadas, vê no horizonte um novo obstáculo para sua competitividade global.
Enquanto isso, o Brasil observa de longe. Com reservas de lítio e um mercado automotivo emergente, o país pode se beneficiar da fragilidade europeia, atraindo investimentos em baterias e mineração. Mas, por enquanto, a crise do outro lado do Atlântico serve como alerta: construir uma cadeia de suprimentos do zero é um desafio que exige tempo, dinheiro e, acima de tudo, realismo.