Nos anos 1990 e 2000, a Mitsubishi era uma força imparável no Brasil. O Pajero dominava as trilhas, o Lancer Evolution arrancava suspiros dos entusiastas e a picape L200 era a escolha de quem precisava de trabalho e lazer. Mas, como uma fênix que queima rápido demais, a montadora japonesa viu seu brilho se apagar. Como uma marca que chegou a ter 4% de participação de mercado em 2010 caiu para menos de 0,5% em 2023? A resposta está em uma combinação de inovação estagnada, erros de produto e uma concorrência que aprendeu a copiar suas melhores ideias.
A Era de Ouro: Inovação e Domínio
Nos anos 1990, a Mitsubishi apostou em tecnologia que a diferenciava. O Pajero (1982) foi um dos primeiros SUVs com monobloco e suspensão independente, oferecendo conforto sem perder a capacidade off-road. O sistema Super Select 4WD permitia trocar entre 2WD, 4WD e reduzida em movimento, algo raro na época. A L200 (1978) se consolidou como picape média com motores a diesel robustos, como o 4D56 (2.5L, 94 cv) e, mais tarde, o 4M41 (3.2L, 165 cv).
O Lancer Evolution, especialmente a partir do Evo IV (1996), trouxe o lendário motor 4G63 turbo (2.0L, 280 cv) com tração integral AYC (Active Yaw Control), que distribuía torque entre as rodas traseiras para curvas mais rápidas. Era um carro de rali para as ruas. No Brasil, o Evo VIII e IX (2003-2006) se tornaram objetos de desejo, com preços que chegavam a R$ 200 mil na época – um valor astronômico.
A Queda: Erros Estratégicos e Estagnação Técnica
O declínio começou nos anos 2010. A Mitsubishi não acompanhou a evolução do mercado. Enquanto rivais como Toyota (Hilux/SW4) e Honda (HR-V/CR-V) renovavam suas linhas, a Mitsubishi manteve o ASX (2010) praticamente inalterado por 10 anos. O ASX, derivado do Outlander, usava o motor 4B11 (2.0L, 160 cv) e câmbio CVT, mas seu design datado e falta de itens de segurança (como airbags laterais) o tornaram obsoleto.
Outro erro foi o abandono do segmento de sedãs médios. O Lancer (2007) era um bom carro, mas a geração seguinte nunca veio. O Lancer GT (2.4L, 168 cv) e o Evolution X (2.0L turbo, 295 cv) foram descontinuados sem substitutos. A Mitsubishi jogou a toalha no mercado de sedãs esportivos, deixando o caminho livre para Subaru WRX e Volkswagen Jetta GLI.
Na picapes, a L200 Triton (2015) até tentou inovar com o motor 4N15 (2.4L turbodiesel, 190 cv) e câmbio automático de 6 marchas, mas a concorrência já oferecia motores mais modernos (como o 2.8L da Toyota e o 3.0L da VW) e mais equipamentos. A L200 sofreu com recalls recorrentes de injeção eletrônica e problemas no câmbio.
| Modelo | Motor | Potência | Período | Problemas |
|---|---|---|---|---|
| Pajero Full | 6G74 3.5L V6 | 202 cv | 1999-2011 | Consumo elevado |
| L200 Triton | 4N15 2.4L turbodiesel | 190 cv | 2015-2024 | Recalls de injeção |
| ASX | 4B11 2.0L | 160 cv | 2010-2023 | Design defasado |
| Lancer Evolution X | 4B11T 2.0L turbo | 295 cv | 2008-2015 | Preço elevado |
O Legado e as Lições
Hoje, a Mitsubishi no Brasil é uma sombra do que foi. A marca se mantém viva graças à L200 (que ainda vende para frotas) e ao Eclipse Cross (um SUV compacto que chegou tarde demais). A participação de mercado é inferior a 0,5%, e a rede de concessionárias encolheu 40% desde 2015. A lição? Inovação não é suficiente; é preciso renovação constante. A Mitsubishi parou no tempo enquanto o mercado avançava. Para o consumidor, resta a nostalgia de um Pajero ou Evo bem cuidado, e a certeza de que, no mundo automotivo, quem não corre, fica para trás.