Parece roteiro de cinema, mas é a mais pura realidade do automobilismo alemão. Enquanto os holofotes se voltavam para a estreia do tetracampeão de Fórmula 1 Max Verstappen como chefe de equipe, pilotando um Mercedes-AMG GT3 Evo, quem roubou a cena nas 24 Horas de Nürburgring foi um improvável Dacia Logan de primeira geração (2004–2012). Preparado pela pequena escuderia Ollis Garage Racing, de Münster, o sedã romeno enfrentou o inferno verde com uma receita modesta e saiu como vencedor moral da prova.
O improvável herói de Nürburgring
Em um grid de 159 inscritos, repleto de GT3 oficiais de Porsche, Mercedes-AMG, BMW e Lamborghini, o Logan se destacou justamente por sua simplicidade. Para encarar os 25 km de Nordschleife, o carro recebeu um motor 2.0 turbo de 280 cv transplantado de um Renault Mégane RS, além de câmbio sequencial de seis marchas. Inscrito na categoria SP3T (para carros turbo de até 2 litros), seus rivais diretos eram três Golf GTI, um Audi TT RS, um Audi RS3 LMS e um Cupra León. Na classificação, o Logan marcou 11min03s438, superando até o Audi RS3 LMS. Durante a corrida, atingiu 178 km/h no retão de Döttinger Höhe, com seus 2,1 km de extensão. A melhor volta absoluta da prova foi de um Lamborghini Huracán GT3 EVO2, com impressionantes 8min08s758, mas o Logan ainda conseguiu virar em 10min22s613, deixando para trás diversos carros de turismo com preparação forte.
Uma história de superação e resiliência
A trajetória da Ollis Garage Racing nas 24 Horas começou em 2021, sempre com Logans. Em 2023, porém, um choque com um Porsche GT3 destruiu completamente o sedã. Os pilotos não se feriram, mas o projeto parecia encerrado. Com a ajuda de fãs, a equipe comandada pelo casal Sabine e Oliver Kriese conseguiu comprar outro Logan e reconstruir o carro praticamente do zero. Na edição de 2026, pilotado por Oliver Kriese, Robert Neumann, Alexander Becker e Christian Geilfus, o pequeno Dacia enfrentou problemas mecânicos constantes, incluindo falhas de ignição acima de 4.500 rpm, que exigiam a troca repetida de um sensor CMP a cada parada. Além disso, houve punições: cinco posições no grid por retorno irregular e um stop-and-go de 74 segundos por excesso de velocidade em zona de Code 60. O drama maior ocorreu nas horas finais: faltando pouco mais de três horas para a bandeirada, o Logan perdeu a roda dianteira esquerda e acertou as barreiras. O resgate gerou discussão entre equipe e fiscais, mas o carro conseguiu completar a prova.
Fenômeno de internet e mascote do público
O que realmente transformou o Dacia em fenômeno foi seu caráter improvável. Em uma corrida marcada pela presença de Verstappen e de grandes equipes oficiais, o sedã virou mascote do público, acumulando vídeos virais e memes nas redes sociais. Um dos momentos mais comentados aconteceu quando o Logan manteve-se na pista em um trecho com óleo enquanto vários GT3 foram parar na área de escape. Para os fãs, o Logan foi o verdadeiro vencedor moral, provando que, no automobilismo, coração e determinação podem superar qualquer diferença de orçamento.
Ficha técnica do Dacia Logan de corrida
| Item | Especificação |
|---|---|
| Motor | 2.0 turbo (Renault Mégane RS) |
| Potência | 280 cv |
| Câmbio | Sequencial de 6 marchas |
| Categoria | SP3T |
| Melhor volta na classificação | 11min03s438 |
| Melhor volta na corrida | 10min22s613 |
| Velocidade máxima | 178 km/h |
| Equipe | Ollis Garage Racing |
| Pilotos | Oliver Kriese, Robert Neumann, Alexander Becker, Christian Geilfus |