Em um movimento que expõe as profundas divisões internas na Honda, um grupo de ex-executivos de alto escalão tentou, sem sucesso, derrubar o atual CEO, Toshihiro Mibe, responsabilizando-o pelos prejuízos bilionários com veículos elétricos (EVs). A crise veio a público após a Honda anunciar, no início deste ano, o cancelamento de três modelos EV planejados para a América do Norte e registrar uma baixa contábil de aproximadamente US$ 15,7 bilhões.
A trama contra o CEO
De acordo com fontes com conhecimento direto das reuniões, a partir do final de 2025, um grupo de ex-executivos aposentados começou a se encontrar regularmente para discutir o que consideravam uma gestão desastrosa. Entre eles estava Nobuhiko Kawamoto, ex-CEO da Honda, hoje com 90 anos. Em abril, Kawamoto foi pessoalmente à sede da empresa e pediu a renúncia de Mibe. A resposta foi um sonoro 'não'.
Os críticos acusam Mibe de ter se distanciado do 'genba' – o conceito japonês de 'lugar real' onde o trabalho acontece, como fábricas e concessionárias. 'O CEO não vê as condições no terreno, não ouve os clientes e não vai ao genba', disseram as fontes. 'A alta administração, incluindo o CEO, não visita o genba. Exemplo: China.'
Mibe também foi acusado de priorizar patrocínios de golfe em detrimento de negócios estratégicos, especialmente na China, mercado crucial onde a Honda perdeu terreno para rivais locais.
O prejuízo histórico e a reestruturação
Sob o comando de Mibe, a Honda registrou seu primeiro prejuízo anual em 70 anos, diretamente ligado à agressiva – e agora considerada equivocada – estratégia de eletrificação. Como consequência, o próprio CEO anunciou um corte de 30% em seu salário por três meses.
No entanto, Mibe contou com o apoio do comitê de nomeação do conselho, composto por uma maioria de diretores externos – uma mudança recente na governança corporativa japonesa para reduzir a influência de executivos aposentados. Esse comitê rejeitou as pressões dos ex-executivos.
Mudança de rota: mais híbridos, menos EVs
Após o cancelamento dos três EVs, a Honda rapidamente mudou de estratégia. Em maio, a empresa anunciou o desenvolvimento de uma nova plataforma de veículos elétricos de próxima geração que também suportará sistemas híbridos. O plano agora é lançar 15 novos modelos híbridos até 2029, dois dos quais já foram apresentados como protótipos: o Honda Hybrid Sedan Prototype e o Acura Hybrid SUV Prototype.
A montadora também reconhece que o mercado americano de EVs pode mudar drasticamente após o segundo mandato de Trump, que termina em janeiro de 2029, e que as eleições de meio de mandato em novembro podem ter grande impacto.
O que esperar da Honda
A crise interna na Honda expõe os desafios de uma das maiores montadoras do mundo em se adaptar à era elétrica sem perder sua identidade. Enquanto Mibe se mantém firme, o mercado observa se a nova aposta em híbridos será suficiente para recuperar a confiança dos investidores e dos consumidores – especialmente na China, onde a empresa mais precisa do 'genba'.
