A maior fábrica de automóveis do Reino Unido, o complexo de Sunderland, da Nissan, pode se tornar um polo de produção para rivais. Em uma reviravolta que reflete a crise do setor, o CEO global da Nissan, Ivan Espinosa, confirmou que a empresa está disposta a 'alugar' sua capacidade para outras montadoras, incluindo a chinesa Chery.
Abertura inédita para concorrentes
Em entrevista recente, Espinosa afirmou que a Nissan 'avalia opções' para Sunderland, que emprega 6 mil trabalhadores. A declaração ocorre após a montadora japonesa anunciar o fechamento de uma das duas linhas de produção no nordeste da Inglaterra, citando demanda fraca. 'A planta opera bem e é viável, mas o problema é o volume insuficiente', disse o executivo. 'Se houver uma forma inteligente de trazer mais volume, podemos considerar algum tipo de arranjo.'
Fontes do setor indicam que a Nissan já conversa com a Chery, que acelera sua expansão na Europa com as marcas Chery, Jaecoo e Omoda. A fabricante chinesa busca capacidade produtiva para evitar tarifas de importação e ganhar escala no continente.
Crise financeira e reestruturação
A decisão de abrir a fábrica a rivais é parte de um plano de recuperação. No último ano fiscal, a Nissan registrou prejuízo líquido de ¥533 bilhões (cerca de £2,5 bilhões), com lucro operacional em queda de quase 12%. Espinosa, que assumiu o cargo há um ano com a missão de cortar custos, afirmou que a empresa precisa se tornar 'capaz de colaborar externamente porque é isso que o ambiente está pedindo'.
Além da Chery, outras montadoras chinesas miram fábricas ociosas na Europa. A BYD, maior fabricante de elétricos do mundo, declarou publicamente que busca plantas com capacidade sobrando. Na Espanha, a Ford teria conversado com a Geely sobre uma fábrica em Valência, enquanto a Stellantis já produz carros da Leapmotor em Madri e Zaragoza.
Impacto para o mercado e consumidores
A terceirização de produção para concorrentes, especialmente chineses, pode baratear carros elétricos no Reino Unido e na Europa, mas também acirra a competição com as marcas tradicionais. Para a Nissan, a estratégia é uma tentativa de monetizar ativos subutilizados e evitar demissões em massa. Sunderland, que produz os modelos Juke, Leaf e Qashqai, terá uma linha desativada, com corte de 900 empregos na Europa.
Especialistas apontam que o movimento da Nissan reflete uma tendência: montadoras ocidentais estão se tornando 'contratantes' de fabricantes chineses para sobreviver à transição elétrica. Resta saber se a parceria com a Chery se concretizará e em que termos.