Em uma revelação que expõe as entranhas do mercado de picapes nos Estados Unidos, a Stellantis admitiu que o motor V8 ainda é um fator decisivo para uma fatia expressiva dos consumidores. Durante um evento em Detroit, Michigan, o CEO Antonio Filosa declarou que 40% dos compradores de picape simplesmente ignoram uma marca se ela não oferecer um motor V8 em seu portfólio. A afirmação, feita após a apresentação do plano de recuperação do grupo, explica por que a RAM foi colocada à frente da Dodge na fila de prioridades da empresa.
O peso do V8 na decisão de compra
Segundo Filosa, a Stellantis cometeu um erro estratégico ao deixar de oferecer o V8 na RAM por um período, apostando exclusivamente em motores de seis cilindros. 'Isso feriu o apelo da marca', admitiu o executivo. A volta do lendário Hemi V8 às picapes da RAM em menos de um ano foi uma resposta direta a essa demanda reprimida. Filosa ressaltou que, mesmo que o cliente acabe comprando um motor menor, a simples existência do V8 funciona como um 'requisito de credibilidade' para a marca.
O fenômeno não é exclusivo da Stellantis. A Ford F-150, picape mais vendida do país, tem apenas cerca de 25% de suas unidades equipadas com V8, o que mostra que o motor não é o mais popular em volume, mas sua ausência no catálogo pode ser um desastre de imagem. A General Motors, por sua vez, já trabalha em um novo small-block V8 para suas picapes, previsto para 2027, sinalizando que o motor oito-cilindros ainda é um trunfo simbólico importante.
A estratégia 'Freedom of Choice'
Filosa batizou a nova abordagem da Stellantis de 'Freedom of Choice' (Liberdade de Escolha). A ideia é oferecer múltiplas alternativas de motorização, desde o V8 até versões eletrificadas, sem impor um único caminho. 'Uma vez que você remove a meta de regulamentação de emissões pela administração, a empresa entendeu que clientes queriam opções diferentes, incluindo um motor a combustão muito potente', explicou.
O executivo, no entanto, fez questão de negar que o movimento represente um abandono da eletrificação. Ele lembrou que o Jeep Recon EV será lançado ainda este ano, e que uma versão a gasolina virá de 12 a 18 meses depois. Filosa também destacou que, se a demanda por elétricos voltar a crescer nos EUA, a empresa pode usar a experiência europeia para acelerar a oferta de EVs na América do Norte.
RAM na frente, Dodge em segundo plano
A declaração de Filosa também jogou luz sobre a hierarquia interna da Stellantis. Enquanto a RAM recebeu o Hemi de volta e ganhou prioridade no desenvolvimento de produtos, a Dodge enfrenta estoques elevados — com 142 dias de veículos parados nas concessionárias americanas. A escolha não foi aleatória: as picapes são o carro-chefe de lucro da empresa, e o V8 é visto como essencial para manter a competitividade nesse segmento.
Para o consumidor brasileiro, a notícia serve de alerta: a RAM, que também é vendida no país com motores V8, pode continuar apostando nessa motorização por mais tempo, enquanto a Dodge pode demorar a receber novidades. A Stellantis, ao admitir o 'medo' de perder clientes sem o V8, mostra que o motor oito-cilindros ainda tem fôlego — mesmo em um mundo que caminha para a eletrificação.
| Marca | Estratégia V8 | Previsão |
|---|---|---|
| RAM | Retorno do Hemi V8 | Já em produção |
| Ford | V8 disponível (25% das vendas) | Contínuo |
| GM | Novo small-block V8 em desenvolvimento | 2027 |