Reorganização interna: Fiat assume Lancia, Citroën fica com DS
Em um movimento estratégico que redefine o posicionamento de suas marcas, a Stellantis anunciou que Lancia e DS Automobiles serão transformadas em marcas especiais dentro do grupo. A partir de agora, a Fiat será responsável pela gestão da Lancia, enquanto a Citroën assumirá o comando da DS. A decisão foi revelada como parte do plano industrial FaSTLAne 2030, que traça as diretrizes do conglomerado para os próximos anos.
De acordo com fontes internas, a medida não significa uma fusão ou extinção das marcas. A Stellantis enfatiza que Lancia e DS continuarão sendo entidades separadas, mas com volumes de produção significativamente menores em comparação com as marcas que as gerenciarão. A expectativa é que ambas passem a oferecer versões mais sofisticadas de modelos da Fiat e da Citroën, respectivamente, em vez de desenvolver produtos totalmente exclusivos – uma estratégia que faria pouco sentido financeiro para marcas de nicho.
O plano FaSTLAne 2030: 110 novos modelos e a promessa de clareza
O CEO da Stellantis, Antonio Filosa, afirmou que “cada marca terá um papel claro no cumprimento das metas do FaSTLAne 2030”. O plano prevê o lançamento de 110 modelos novos ou atualizados até o final de 2030, e é razoável esperar que parte deles carregue os emblemas da Lancia e da DS. No entanto, a empresa não detalhou quantos modelos cada uma das marcas especiais receberá.
A reorganização também reforça a hierarquia interna do grupo: Fiat, Peugeot, Jeep e Ram são agora as quatro marcas globais, enquanto Citroën, Opel/Vauxhall, Alfa Romeo, Dodge e Chrysler são classificadas como marcas regionais. Lancia e DS, por sua vez, entram na categoria de marcas especiais, com menor volume e foco em nichos específicos.
Desempenho de vendas: números preocupantes, mas com sinais de recuperação
Os números de vendas mais recentes mostram a magnitude do desafio. De acordo com dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA), a Lancia (agrupada com a Chrysler) registrou uma queda de 64% em 2025, com apenas 11.754 unidades vendidas. No entanto, o primeiro trimestre de 2026 já apresenta uma recuperação de 15,5%, com 4.072 unidades comercializadas.
Já a DS Automobiles teve um desempenho um pouco melhor, mas ainda preocupante: queda de 22,5% em 2025, com 29.042 veículos vendidos. O primeiro trimestre de 2026, porém, manteve a tendência de baixa, com uma retração de 17,1% e 6.771 unidades.
O que esperar das marcas especiais?
A Stellantis não detalhou o que significa exatamente o termo “marca especial”, mas a expectativa é que Lancia e DS operem com volumes reduzidos e foco em produtos de maior valor agregado. Para a Lancia, que tem uma história rica no automobilismo e no design italiano, a esperança é que a marca consiga se reposicionar sem perder sua identidade. Já a DS, que nasceu como uma linha de acabamento da Citroën antes de se tornar uma marca independente, pode voltar a ter uma relação mais próxima com a matriz.
Enquanto isso, a Maserati, que também foi alvo de rumores de venda, permanece no grupo. A Stellantis garante que todas as 14 marcas originais estão seguras, ao contrário do que se especulou após a fusão da PSA com a FCA em 2021.
Tabela: Desempenho de vendas de Lancia e DS (2025 e Q1 2026)
| Marca | Vendas 2025 | Variação 2025 vs 2024 | Vendas Q1 2026 | Variação Q1 2026 vs Q1 2025 |
|---|---|---|---|---|
| Lancia (incl. Chrysler) | 11.754 | -64% | 4.072 | +15,5% |
| DS Automobiles | 29.042 | -22,5% | 6.771 | -17,1% |
Fonte: ACEA (European Automobile Manufacturers' Association)
Análise: o desafio de manter marcas de nicho relevantes
A decisão da Stellantis de não fundir ou eliminar marcas como Lancia e DS pode surpreender em um mercado cada vez mais competitivo e com pressão por redução de custos. No entanto, a estratégia de transformá-las em marcas especiais, com gestão terceirizada para a Fiat e Citroën, pode ser uma forma de mantê-las vivas sem comprometer recursos excessivos.
O grande desafio será atrair compradores em um cenário de forte concorrência interna e externa. A Lancia, por exemplo, compete diretamente com a Alfa Romeo e até mesmo com a Peugeot em alguns segmentos. Já a DS enfrenta a concorrência de marcas premium consolidadas, como BMW e Mercedes-Benz. Se a Stellantis conseguir posicionar essas marcas como opções aspiracionais dentro de seu portfólio, talvez consiga extrair valor sem precisar de grandes volumes.
Por enquanto, a promessa é de que todos os 14 selos do grupo permanecem intactos. Resta saber se o mercado dará a chance que Lancia e DS merecem.